um dia acordou com uma nuvem na cabeça. simples assim: de repente, um chumaço gingante de algodão apareceu, sem explicação. a nuvem mudava de forma e tamanho, quase como convidando para entrar. não pensou duas vezes e resolveu explorar o novo casulo.

dentro da nuvem era confortável e parecia não acabar. infinito branco e fofo. coisas aconteciam e eram como opções de canais para assistir; ela só sentava e controlava com os olhos, como um controle remoto, qual cena preferia ver no momento. no começo, tentou arrancar a nuvem da cabeça a todo custo, mas finalmente acostumou-se com a visão bidimensional e os canais de som desregulados, típicos de um aparelho de televisão velho.

percebeu que podia dar zoom onde quisesse, pôr e tirar o foco da imagem conforme fosse a sua vontade e escolher qual dos sons das cenas seria o de fundo e qual seria o principal. começou a brincar com a nova habilidade adquirida: durante uma conversa séria na cozinha, o som da água fervendo se tornava insuportável, cobrindo as vozes dos envolvidos. a câmera então focava no fogão, o zoom aumentando e diminuindo, como se o câmera estivesse bêbado. percebeu que não era uma simples expectadora quando o zunido da ebulição começou a incomodar e machucar seus ouvidos. uma música começou a tocar, como se alguém tivesse ligado um rádio por cima do som da televisão.

a nuvem, de repente, engoliu sua cabeça por inteiro, de uma vez. tal rapidez não pôde ser percebida pela menina, que era torturada com a sensação de ser a refeição de uma cobra sendo lentamente levada ao estômago. a água fervendo, as vozes sóbrias, os assuntos entediantes, o fogão, a mesa, as pessoas, o chão, tudo entrava num redemoinho louco que se abriu no chão. ela então se encheu de coragem e se atirou junto de tudo, sumindo, entrando de vez no mundo louco que nascera de sua cabeça.